quinta-feira, 15 de março de 2012

Não violência e sabedoria oriental

Lendo o texto "El poder de la no violencia" no meu livro de espanhol,que foi escrito pelo neto do Mahatma Gandhi e que fala sobre a habilidade dos pais na educação e punição,me lembrei de uma amiga minha,descendente de chineses e japoneses,que sempre que tirava uma nota na média chorava.Nós sempre dizíamos no jeitinho brasileiro de consolar: " Mas está na média,não é nota baixa" ,e ai mesmo que ela desabava.Mas houve um dia que ela explicou porque tanto choro,porque tanto drama (drama ao nosso ver).Disse que quando ela tirava uma nota assim,quem sofria era o pai dela,ele sentia que havia falhado.

Essa lição me tocou profundamente,porque temos o costume de não assumir responsabilidades,como brasileiros,como ocidentais,passamos a culpa,não nos preocupamos em ensinar,em fazer o melhor.Sou fã da filosofia oriental,porém ela me assusta em alguns aspectos (dizer o quê?).Uma vez,ainda num livro de espanhol,li que os orientais desconheciam a depressão,porque para eles a vida já é uma dor.Imagine ler algo assim na sexta série.Assusta ou não? Mas acho espetacular a vocação que os orientais têm para o conhecimento e a vontade de saber principalmente.Essa minha amiga,por exemplo,diz que não precisa estudar,que não se cobra muito (embora isso seja paradoxal com o que já disse sobre ela).Enquanto todos se matam de estudar nas muitas semanas de provas ela está se dedicando aos seus cães.Porém enquanto todos dormem durante as aulas ,ela está sempre questionando tudo e todos.Mais uma lição.

Então,como vi reaberta a discussão das pamaldinhas em crianças,que eu desde que tinha uns cinco anos já achava horrível e deselegante as mães das outras crianças baterem nelas,acho o texto abaixo bastante convincente.Palmada não ensina nada,os meus amigos de infância que mais apanhavam até hoje desobedecem com muita frequência.É como tratar escravos,que depois de "aprontar" iam para o tronco.Somos humanos,não bichos.Devemos aprender com o erro e não sofrer com o erro.Acho que é isso.E acho que criar uma lei para assegurar isso é o mesmo que chamar a nação de malcriada,de burros que não sabem educar.

O Dr. Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do MK Institute, contou a seguinte história sobre a vida sem violência, na forma da habilidade de seus pais, em uma palestra proferida em junho de 2002 na Universidade de Porto Rico.
Eu tinha 16 anos e vivia com meus pais, na instituição que meu avô havia fundado, e que ficava a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul.
Vivíamos no interior, em meio aos canaviais, e não tínhamos vizinhos; por isso minhas irmãs e eu sempre ficávamos entusiasmados com possibilidade de ir até a cidade para visitar os amigos ou ir ao cinema.
Certo dia meu pai me pediu que o levasse até a cidade, onde participaria de uma conferência durante o dia todo. Eu fiquei radiante com esta oportunidade. Como íamos até a cidade, minha mãe me deu uma lista de coisas que precisava do supermercado e, como passaríamos o dia todo, meu pai me pediu que tratasse de alguns assuntos pendentes, como levar o carro à oficina. Quando me despedi de meu pai ele me disse:
"Nós nos encontraremos aqui, às 17 horas, e voltaremos para casa juntos."

Depois de cumprir todas as tarefas, fui até o cinema mais próximo. Distraí-me tanto com o filme (um filme duplo de John Wayne) que esqueci da hora. Quando me dei conta eram 17h30. Corri até a oficina, peguei o carro e apressei-me a buscar meu pai.

Eram quase 18 horas. Ele me perguntou ansioso:
"Por que chegou tão tarde?"
Eu me sentia mal pelo ocorrido, e não tive coragem de dizer que estava vendo um filme de John Wayne. Então, lhe disse que o carro não ficara pronto, e que tivera que esperar. O que eu não sabia era que ele já havia telefonado para a oficina. Ao perceber que eu estava mentindo, me disse:
"Algo não está certo no modo como o tenho criado, porque você não teve a coragem de me dizer a verdade. Vou refletir sobre o que fiz de errado a você. Caminharei as 18 milhas até nossa casa para pensar sobre isso."
Assim, vestido em suas melhores roupas e calçando sapatos elegantes, começou a caminhar para casa pela estrada de terra sem iluminação.
Não pude deixá-lo sozinho... Guiei por 5 horas e meia atrás dele... Vendo meu pai sofrer por causa de uma mentira estúpida que eu havia dito.
Decidi ali mesmo que nunca mais mentiria.
Muitas vezes me lembro deste episódio e penso: "Se ele tivesse me castigado da maneira como nós castigamos nossos filhos, será que teria aprendido a lição?" Não, não creio. Teria sofrido o castigo e continuaria fazendo o mesmo. Mas esta ação não-violenta foi tão forte que ficou impressa na memória como se fosse ontem.

"Este é o poder da vida sem violência."

2 comentários:

Larissa V. disse...

Ooooi :D obrigada pelo comentário e por seguir o Dragão!

Pois é, para os orientais essa questão é muito séria. Para nós, basta "passar" ou conseguir arranhando, para eles é muito diferente. Não se trata de cumprir uma obrigação e se livrar dela, é mais.
Sobre a palmada, eu acredito que a agressão não é o caminho. Mas às vezes uma palmadinha de leve é extremamente necessária, não para fazer doer, mas pra dar um alô, te liga! na criança que é muito capeta e não escuta nem se importa com nada xD Só que uma palmadinha sem um ensinamento correto não adianta nada. Maaas, não tenho experiência com criação de crianças (e nem quero ter xD), minha opinião ainda é meio vaga.
:*

Milena M. disse...

Nossa, que texto forte!
Sabe, eu acredito muito na sabedoria oriental. Não em casos como o da sua amiga. Tenho uma amiga assim e discordo muito de pressões exageradas, acho que elas só ajudam a criar adultos inseguros e que não se valorizam.
Mas quanto à não-violência, concordo muito! Se eu for mãe, vou refletir muito sobre maneiras alternativas de ensinar. Bater é tão ineficaz e estúpido...
Beijo!